Apetite e desejo
Enunciado formal
Quando o conatus é referido apenas à mente, chama-se vontade. Quando referido à mente e ao corpo em conjunto, chama-se apetite. O desejo é o apetite com consciência dele. Não perseveramos pelas coisas porque as julgamos boas; antes, julgamo-las boas porque perseveramos por elas.
Em linguagem simples
Esta é uma das inversões mais notáveis de Spinoza em relação ao senso comum. Achamos que desejamos chocolate porque ele é bom. Spinoza diz: o chocolate nos parece bom porque o desejamos. O valor não é uma propriedade dos objetos esperando ser descoberta — é uma projeção do nosso conatus. O que chamamos de "vontade" é apenas a face mental do mesmo conatus que, visto pelo lado do corpo, é apetite. Acrescente consciência e você obtém desejo — o primeiro dos três afetos primários.
Por que isto se segue
De ce-10, a mente é consciente do seu conatus. Spinoza aqui simplesmente nomeia essa perseverança sob diferentes descrições: vontade (apenas mental), apetite (mente-corpo), desejo (apetite mais consciência). A inversão do bem e do desejo se segue do fato de que o conatus é anterior a qualquer juízo de valor (ce-08: a perseverança é essência, não uma resposta a avaliação externa).
O desejo é o apetite consciente — o primeiro afeto primitivo e a origem de toda valoração.
Se chamamos as coisas de boas apenas porque as desejamos, há alguma base objetiva para a ética no sistema de Spinoza, ou tudo é em última instância preferência?